Ademar Mesquita Junior, CEO da Braves Partners, aponta que a combinação de gastos elevados e enfraquecimento dos controles institucionais pode levar o Brasil a uma crise fiscal semelhante à argentina, apesar das diferenças atuais.
O Brasil corre o risco de repetir problemas econômicos e institucionais associados ao kirchnerismo na Argentina, caso não contemple o crescimento dos gastos públicos e preserve a independência dos órgãos de fiscalização. A avaliação é do economista Ademar Mesquita Junior, CEO da Braves Partners, que identifica semelhanças entre os dois países na utilização política de benefícios, na relação com o Judiciário e nas dificuldades para equilibrar as contas públicas.
A Argentina não quebrou por causa de um único erro. Quebrou porque o kirchnerismo usou o dinheiro fácil do boom das commodities para inchar o Estado e comprar apoio, em vez de preparar o país para quando a maré baixasse, afirma o economista.
- O risco principal está na combinação de permanência prolongada no poder com expansão de despesas;
- A Argentina usou o dinheiro fácil de exportações para aumentar o Estado sem planejar o futuro;
- O Brasil perdeu a oportunidade de transformar renda de commodities em infraestrutura e educação;
- Aproximação entre políticos e órgãos de controle pode comprometer a aplicação das leis;
- Banco Central autônomo e oposição forte no Congresso ainda seguram o tranco no Brasil.
Comparação entre os dois países
Na análise de Mesquita Junior, a comparação vai além da orientação ideológica dos governos. O ponto central seria a combinação entre permanência prolongada no poder, expansão de despesas e enfraquecimento dos mecanismos de controle. Essa é a interpretação apresentada pelo economista em texto sobre o que chama de kirchnerismo à brasileira.
O CEO da Braves Partners sustenta que receitas obtidas em períodos favoráveis para as exportações deveriam financiar ganhos duradouros de produtividade. Em sua avaliação, o Brasil perdeu oportunidades de transformar a renda das commodities em infraestrutura, educação e maior competitividade industrial.
A crítica também alcança o financiamento de programas e benefícios. Para Mesquita Junior, ampliar despesas sem garantir sustentação fiscal aumenta a pressão sobre a dívida e pode tornar mais caro o ajuste necessário no futuro. Ele associa esse risco ao uso eleitoral da máquina pública para garantir reeleições e apoio político.
Instituições no centro do debate
O economista considera que a discussão fiscal está diretamente ligada à capacidade das instituições de fiscalizar o Executivo. Em sua análise, a proximidade entre autoridades políticas e integrantes dos órgãos de controle pode comprometer a confiança na aplicação das regras e na justiça.
Um Judiciário cheio de aliados não precisa fraudar nada. Basta escolher onde aplicar o rigor, escreve.
A declaração expressa a avaliação crítica de Mesquita Junior sobre a atuação das instituições brasileiras. No texto, ele questiona indicações políticas para tribunais e sustenta que haveria tratamento desigual entre adversários e pessoas próximas ao poder.
O CEO da Braves Partners também relaciona a governabilidade às negociações com o Congresso. Na sua leitura, um Executivo sem maioria própria precisa construir apoio parlamentar, mas esse processo aumenta o risco de utilização de recursos públicos como instrumento de sustentação política.
Proteções e riscos futuros
Ao mesmo tempo, ele reconhece diferenças importantes entre o Brasil e os exemplos que utiliza na comparação. Cita a autonomia do Banco Central, as reservas internacionais e a presença de uma oposição forte no Legislativo como fatores de proteção contra uma crise profunda.
O Banco Central autônomo, as reservas e uma oposição forte no Congresso ainda seguram o tranco, afirma.
Ao abordar a Argentina, Mesquita Junior apresenta o governo de Javier Milei como exemplo do custo de corrigir desequilíbrios acumulados. Sua avaliação é que medidas de ajuste podem produzir consequências sociais severas antes de uma recuperação efetiva.
É o preço de consertar em poucos anos o estrago de duas décadas, e quem paga primeiro é sempre quem tem menos, diz.
A comparação com a Venezuela aparece como um alerta sobre outro risco: a deterioração econômica acompanhada da perda de independência das instituições. O economista não apresenta os dois caminhos como resultados inevitáveis para o Brasil, mas argumenta que as decisões políticas e a capacidade de fiscalização serão determinantes.
O que separa o país que passa por um ajuste doloroso do país que vira Venezuela não é a economia. São as instituições, afirma.
Para o CEO da Braves Partners, a principal questão é se os órgãos responsáveis por impor limites ao governo terão condições de exercer esse papel. A pergunta é se ainda existe um tribunal, um Senado ou um Banco Central com coragem de dizer não ao governo.


Marcello Casal Jr./Agência Brasil





