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04 de novembro de 2026

BrasilAgro lucra R$ 81 milhões no trimestre ao vender fazenda na Bahia

Geral BrasilAgro 04/11/2026 07:41 Luiz Fernando Sá - Agfeed agfeed.com.br Correntina BA

A empresa BrasilAgro encerrou o primeiro trimestre do exercício 2026/2027 com lucro líquido de R$ 81,3 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 64,3 milhões registrado no mesmo período do ano anterior. O resultado positivo foi impulsionado pela venda de 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, em Correntina (BA), o que também permitiu reduzir a dívida líquida ajustada em 51%, alcançando R$ 136,3 milhões.

Na BrasilAgro, o início de uma nova safra marca também o princípio de um novo exercício fiscal. E a companhia, que combina negócios agrícolas com imobiliários, pode dizer que começou o ciclo 2026/2027 com o pé direito, pelo menos na última linha do balanço do primeiro trimestre da temporada.

Com a retomada das vendas de propriedades rurais, depois de um ano sem transações desse tipo, a empresa conseguiu reverter o desempenho negativo do mesmo período do ano passado, compensando um momento ruim nas operações agrícolas.

  • A venda de uma fazenda na Bahia gerou um ganho de R$ 50,8 milhões no trimestre.
  • A dívida líquida ajustada pela empresa caiu de R$ 280,5 milhões para R$ 136,3 milhões, uma redução de 51%.
  • A margem bruta da soja caiu de 30% para 27%, enquanto a do milho desabou de 20% para 2%.
  • A companhia já travou 57% da soja a US$ 12,26 por bushel, preço 11% acima do ciclo anterior.
  • O CEO afirmou que a melhor estratégia atual é a redução do endividamento, dada a alta dos juros longos.

Desempenho financeiro impulsionado por venda de ativos

Em setembro passado, a empresa vendeu 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, em Correntina (BA), por cerca de R$ 45 mil o hectare útil, aproximadamente três vezes o valor contábil da área.

O valor nominal da venda foi de R$ 94,2 milhões e, após ajuste a valor presente de R$ 17,2 milhões, a receita reconhecida somou R$ 77,0 milhões, deduzido o custo contábil de R$ 26,2 milhões. No balanço trimestral divulgado nesta terça-feira, 3 de novembro, a operação gerou um ganho de R$ 50,8 milhões.

Com isso, a companhia fechou o trimestre com lucro líquido de R$ 81,3 milhões, contra prejuízo de R$ 64,3 milhões de um ano antes. O Ebitda Ajustado Total alcançou R$ 94,6 milhões, alta de 47%. A receita líquida total somou R$ 351,7 milhões, crescimento de 16%.

Com essa e outras vendas mais antigas, cujas parcelas continuam sendo pagas à BrasilAgro, os efeitos dos negócios imobiliários foram significativos para fazer a empresa ficar mais leve. A companhia recebeu R$ 71,7 milhões por conta dessas transações no trimestre e, assim, a dívida líquida ajustada pelos recebíveis caiu de R$ 280,5 milhões para R$ 136,3 milhões, uma redução de 51%.

A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida ajustada e Ebitda Ajustado dos últimos 12 meses, passou de 2,82 para 1,05 vezes.

Desafios nas operações agrícolas com soja e milho

E pode se esperar mais ajuda vindo das vendas de terras nos próximos demonstrativos. A BrasilAgro tem R$ 626 milhões a receber por vendas de fazendas, sendo R$ 218 milhões com vencimento nos próximos 12 meses. Segundo a empresa, o custo médio da dívida é de 92,95% do CDI.

Excluindo o ganho imobiliário, no entanto, o desempenho operacional no campo recuou. O Ebitda Ajustado das Operações ficou em R$ 43,8 milhões, queda de 32% sobre o primeiro trimestre do ano fiscal de 2026. Cerca de dois terços da variação vieram do resultado de derivativos, que passou de ganho de R$ 9,6 milhões para perda de R$ 3,4 milhões, concentrada em soja. O restante refletiu a menor margem de soja e milho.

A margem bruta da soja caiu de 30% para 27%, com o preço médio subindo 7% e o custo unitário avançando 13%, pressionado por ajustes de qualidade da safra 2025/2026. A do milho desabou de 20% para 2%. O custo unitário subiu 17%, o preço caiu 4%, o que reduziu a rentabilidade por tonelada e contribuiu para a queda de 65% no resultado bruto da cultura, apesar do maior volume faturado.

No release de resultados, uma situação insólita é apontada como responsável por parte das perdas no milho. "Adicionalmente, cerca de 45% do volume comercializado foi impactado pelo aumento dos custos de colheita, decorrente de perdas relacionadas ao ataque de porcos", diz o texto.

A cana-de-açúcar foi a exceção positiva. A margem subiu de 14% para 17%, com o resultado bruto crescendo 8%, para R$ 19,8 milhões. A produtividade medida em TCH alcançou 75,86 toneladas por hectare no acumulado de abril a setembro, 9,2% acima do mesmo período de 2025.

Estratégia de plantio antecipado contra o El Niño

Se o balanço reflete o que já passou, a empresa tem um olhar mais positivo para a safra de grãos que se inicia. As notícias que vêm das fazendas do grupo são favoráveis. Até 22 de outubro, a companhia havia plantado 49% da área prevista de soja, 17 dias à frente da safra anterior, com 73% do plantio dentro da janela ótima.

Segundo o CEO da empresa, André Guillaumon, a BrasilAgro já travou 57% da soja a US$ 12,26 por bushel, preço 11% acima do travado na safra passada, e comprou 94% dos fertilizantes abaixo do orçamento.

Com o avanço da semeadura, o executivo acredita que a empresa se posiciona bem para enfrentar um ciclo sob os efeitos do fenômeno climático El Niño. "A gente sabe que o que a gente quer é eventualmente escapar daquele veranico lá no enchimento de grão", disse Guillaumon em teleconferência com jornalistas para apresentação dos resultados trimestrais.

"Quando a gente planta mais cedo, você joga o período crítico dessa lavoura para meados de dezembro até meados de janeiro. Então, teoricamente, deveria ter umidade no solo, e você consegue encher melhor os grãos."

O avanço, porém, foi desigual. No Mato Grosso, a chuva que chegou por volta de 20 de setembro liberou o plantio em praticamente todas as unidades e o avanço já supera 91% das áreas plantadas. No Maranhão e no Piauí, a janela abriu mais tarde.

"Se você me perguntar hoje, a preocupação que eu tenho de El Niño é maior nessas áreas", afirmou. O que atenua o risco, segundo ele, é o manejo. "São áreas em que a gente tem as melhores palhadas da companhia, os melhores rastreamentos. Então isso atenua um pouco o efeito de veranico."

Guillaumon fez uma ressalva sobre o comportamento atípico do fenômeno neste ciclo. "Não se discute que nós estamos num super El Niño. Mas começa a ter tendências de que você tem, depois do super El Niño, uma La Niña se instalando de grande intensidade também. Esse é um evento climático que nunca ninguém observou."

O efeito projetado, diz ele, pode ser favorável em algumas regiões como o Mato Grosso. "Você pode ter um alongamento do período chuvoso, o que deve beneficiar ainda mais a safra."

No milho, segundo ele, a decisão foi de não crescer. Mesmo com a janela favorável para a safrinha, a companhia optou por produtividade em vez de área. "A gente até discutiu se faria sentido aumentar a área de milho safrinha, mas o custo de capital é uma coisa relevante", disse.

"A gente prefere ter um milho com mais produtividade do que ter um aumento da área de plantio. É ano de a gente fazer o feijão com arroz bem feito e colher uma produtividade boa na segunda safra."

Assim, a projeção de produção de grãos e algodão é de 439,3 mil toneladas, 3% acima da safra anterior, mas 3% abaixo da estimativa inicial. A área total caiu 1%, para 164.664 hectares, com redução de 15% no milho de primeira safra parte das áreas de menor aptidão foi destinada a pousio e plantio de cobertura.

Preocupações com o clima e a política de juros

Já para a cana-de-açúcar, o cenário é inverso. Se houve ganhos no trimestre passado, as previsões não são animadoras para o restante da safra. A produção de cana foi revisada para 2,06 milhões de toneladas, com TCH estimado em 77,05, contra a estimativa inicial de 2,18 milhões e 79,51, respectivamente.

O ponto de atenção da cultura está localizado nas condições climáticas nos canaviais de São Paulo. "A chuva não está dando trégua. Setembro foi o setembro mais chuvoso da história e a gente praticamente não conseguiu colher cana, e o estado inteiro colheu muito pouca cana em setembro", disse Guillaumon.

Segundo ele, uma usina parceira, que historicamente encerra a safra em 30 de outubro, avisou que vai moer até 20 de dezembro. "Então, está todo mundo fazendo um esforço hercúleo para moer, mas todo mundo sabe que entra novembro e entra dezembro, a capacidade operacional diminui muito por causa de chuva."

Restam cerca de 170 mil toneladas a colher no estado, de um total superior a 300 mil na unidade e ele espera recuperar o tempo perdido. "A gente tem ainda o novembro inteiro, a gente tem até o 20 de dezembro, então eventualmente pouca coisa de cana ou um pedaço de cana deve ficar para ser colhida no início da safra que vem."

Se o clima é a maior preocupação do lado operacional para a empresa, Guillaumon também destacou o impacto de uma potencial demora na queda dos juros. "O que afugenta investimento, o que afugenta tudo, é a curva de juro no longo prazo. O que preocupa a gente não é a curva no curto, é a curva no longo", disse.

"A foto que eu tinha há 15 dias atrás não era essa. Era Boletim Focus, 192 casas montando uma curva de juros para baixo. A gente tem uma curva de juro flat agora ou com leve tendência de alta."

Com isso, segundo ele, as empresas dos diversos segmentos devem adotar posições mais conservadoras em busca de melhores retornos. "Se eu for comprar uma fazenda nova, a TIR dos projetos está dando 6%, 7%. Pagar a dívida, descontada a inflação, te dá 9%, 10%", afirmou. E concluiu: "Não tenho dúvida de que a melhor TIR hoje é redução de endividamento, para quase todos os setores da economia."

A mesma matemática vale para uma possível recompra de ações, que ele descartou no curto prazo. "O nosso papel no dia (posterior ao da eleição presidencial) apanhou 16%, 17% e já recuperou um pouco. Se tivesse apanhado os 40%, a TIR do negócio talvez faria sentido. Mas hoje, entre comprar fazenda nova, recomprar ação ou pagar endividamento, reduzir endividamento ainda é o melhor cenário."

Posicionamento estratégico no mercado imobiliário rural

Guillaumon avaliou também a leitura de que haveria uma queda do preço da terra, que poderia contaminar o portfólio da companhia. "Se nós fôssemos uma imobiliária que só compra terra madura, eu estaria muito preocupado. Mas a gente está comprando ativo no qual está colocando capex, está colocando transformação. A gente é motorista desse carro da valorização imobiliária, não é passageiro."

E, como tal, sua posição é de uma empresa compradora. "A gente agora é uma empresa mais compradora do que vendedora, mas nós estamos fazendo venda, não deixamos de fazer. Aparecendo oportunidade como essa que apareceu com essa taxa interna de retorno, nós vamos seguir fazendo."

O CEO costuma tratar o preço da terra como "um ativo de movimento lento, tanto para subir como para descer." Ele reconhece que as taxas de juros altas geram uma redução de valor nos ativos reais, mas acredita que, no caso do mercado de terras, o efeito mais imediato é sobre a demanda.

"Se eu tinha 100 clientes para uma fazenda, agora tem 30. Mas esses 30 agora, com essa recuperação de Chicago, com essa recuperação de câmbio, eu acho que esses 30 estão ávidos. Vão suprir os outros 70 Talvez não, mas eles vão suprir um pedaço desses outros 70", analisou, explicando por que não acredita em desvalorização das propriedades rurais.

Gustavo Lopez, CFO da companhia, lembra também que o bom momento da pecuária ajuda a reduzir a oferta de fazendas e que isso funciona como um fator de sustentação das cotações dos imóveis rurais. "O preço da proteína está muito bom. O produtor que está com gado está numa fase muito boa de margem, então ele não tem pressão para vender terra", afirmou.